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Bonifrate sexta-feira no Rio de Janeiro!

fevereiro 4, 2019

whatsappimage2019-01-16at00.46.10Nesta sexta-feira, 8 de fevereiro, Bonifrate faz show solo no Aparelho, Rio de Janeiro, dividindo a noite com Marcelo Callado, também em show solo.

O repertório inclui novas canções e faixas do último EP Lady Remédios (2017) e dos últimos LPs Museu de Arte Moderna (2013) e Um futuro inteiro (2011).

A apresentação é a primeira de Bonifrate fora de Paraty, cidade onde reside, desde 2016, e a primeira no Rio de Janeiro desde 2014.

Segue o serviço completo:

Bonifrate e Marcelo Callado no Aparelho

Endereço: Praça Tiradentes, 85 – Centro – Rio de Janeiro
Horário: 22h
Entrada: R$ 15
Evento no Facebook

Vinis à venda!

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O ano de 2018: relatório musical do Bonifrate

dezembro 20, 2018

Dois mil e dezoito, rugas, queda de cabelo, falta de ar, inferno astral, pesadelos políticos. Que fazer? viver um dia de cada vez, rastrear espíritos, caçar energia, apoiar, proteger, escutar camaradas, cultivar memórias, em si e em outrem, criar sons, rabiscar versos, sonhar com orquestras, andar de bicicleta.

Bonifrate Alecrim 3 (thalita silva)

Sejamos objetivos, falemos de música e de encontros.

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No começo do ano, finalmente chegaram as cópias do disco Um futuro inteiro, de 2011, relançado em vinil 12″ pela Dom Pedro Discos, de Brasília. O som está incrível na bolacha, e a arte foi refeita genialmente em gravura pela Dani Hasse. Pra comprar, é só encomendar pelo e-mail calundu91@gmail.com.

capa UFI low


ii

 

Ainda no início do ano fui convidado pelos caras do Bike pra gravar uns vocais em “Ingá”, de seu ótimo terceiro disco Their Shamanic Majesties Third Request, que saiu em março.

 

 


 

iii

 

Como homenagem aos saudoso Mark E. Smith, o selo carioca e agora londrino Midsummer Madness, primeira casa dos Supercordas e de tantas bandas maneiras, lançou a breve coletânea Perverted By Homage: A Tribute To The Fall. Eu participei com essa releitura folkeira de “Psykick Dancehall”, da qual fiquei bastante orgulhoso pra falar a verdade. Achei que uma versão mais balada dessa canção ressaltaria a beleza de versos como esses: “When I am dead and gone, my vibrations will live on, in vibes on vinyl through the years, and people will dance to my waves”.

 

 


 

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4trackEm julho, mês do meu aniversário, sofri aquilo que convencionei chamar “inferno astral elétrico”, e diversos equipamentos meus foram sucessivamente quebrando e tendo circuitos queimados. No fim, sem computador, me sobrou um gravador de fita de 4 canais, onde comecei a gravar e escrever o que viria a ser “Alfa Crucis”. Também foi quando voltei a me apresentar ao vivo, o que eu não fazia desde o último show dos Supercordas no festival Se Rasgum, em Belém, no final de 2016.

O modesto retorno se concentrou em Paraty, onde eu moro, e com formação solo: violão, teclado Casio, efeitos diversos, percussões, tudo passando por um looper JamMan, camadas sendo acrescentadas ao vivo.

Cartaz Bonifrate MAR 2018 (WEBcomVJ)Fui convidado na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) pra integrar a programação especial da Biblioteca Maria Angélica Ribeiro, do Colégio Estadual CEMBRA, recentemente reformada e rebatizada no contexto de um processo de mobilização e de luta que passou pelas ocupações de 2016 e pela conquista do direito dos estudantes de eleger seus diretores. Uma chapa de professores grevistas e mobilizados foi eleita, e a escola passou por transformações muito significativas, inclusive no seu espaço físico, e também por muita perseguição política.

A nova biblioteca foi batizada com o nome da primeira dramaturga mulher – feminista, abolicionista, nascida em Paraty – a ter uma peça encenada em teatro no Brasil, em 1859. A memória de Maria Angélica Ribeiro foi recentemente resgatada na cidade pela ação do coletivo feminista que leva seu nome, em especial da minha companheira Thalita Silva, e pela releitura de seus textos realizada pelos grupos de teatro locais Andantes Errantes e Olho Negro.

Fiz uma apresentação focada no EP de 2017, Lady Remédios, acompanhada de projeções da amiga Antonia Regina Moura – pesquisadora de culturas tradicionais e de música, DJ Telurika, fotógrafa, etc -, que passou a integrar a maioria das gigs desse ano.

 


 

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Em agosto vi chegar ao mundo o incrível segundo álbum da Betina, Hotel Vülcânia, produzido por meu parceiro de tantos anos Diogo Valentino. Participei com uma viola caipira, melotrons e outros teclados, gravados no último ano novo aqui em casa.


 

vi

 

Também na época das festas de fim de ano, mas há dois e três anos atrás, e em outras visitas esporádicas, comecei a gravar junto com Dinho Almeida (Boogarins) uns sons que começaram bem despretensiosos e acabaram se tornando o álbum de um novo projeto que vai sair no início do ano que vem. Em setembro deste ano ele esteve em Paraty pra fecharmos algumas canções e fazer umas fotinhos, e terminei a mixagem na sequência. Foi uma parceria bem intensa e nova pra mim, equilibrar a minha lentidão decantante fermentativa com o imediatismo e espontaneidade geniais do Dinho. Lá vem um grande disco!

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Foto: Henrique Milen Carvalho

 


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Untitled-2Logo depois da visita do Dinho, toquei novamente em Paraty, no Hostel Alecrim, espaço aconchegante e colorido da Claudia e do Nelson – velho conhecido de rocks do Rio de Janeiro que está morando por aqui também. Foi um baita clima gostoso, com um dos maiores sets que já fiz, totalizando duas horas, no dia de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira da cidade e inspiração do meu último EP.

 

Veja “Concórdia/ O voo de Margarida”, do disco Um futuro inteiro, no Alecrim:


 

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sescboniFiz mais um concerto nos mesmos moldes no Sesc Paraty, unidade Santa Rita, dia 26 de outubro, na programação do projeto Aldeia Paraty, que realiza apresentações de artistas locais e de grupos de culturas tradicionais. Foi incrível cantar as canções de Lady Remédios pra um público majoritariamente local e de amigos, olhando pela janela alguns dos lugares que eu referencio na faixa título – o mangue fantasma soterrado pelas marinas dos ricaços, as baleeiras sonsas encalhadas na maré rasa, o iodeto de prata da baía. Antonia novamente ajudou a criar o clima com suas projeções, agora mais psicodélicas e distorcidas. O pessoal do Sesc daqui foi maravilhoso, e fizeram me sentir de fato em casa.


 

ix

 

Dias depois, após a concretização do nosso maior pesadelo político, resolvi finalizar “Alfa Crucis” e lança-la como single, a princípio isolado. Achei que seria um bom momento pra botar uma canção esperançosa e contemplativa no mundo, e um amigo disse que seria legal, porque as coisas tendem a ser absorvidas mais intensamente nesses momentos.

Pedi pra Antonia editar um vídeo despretensiosamente, algo como uma das projeções que ela editou ao vivo pros shows, mas eis que ela me veio com essa vasta e complexa obra audiovisual, lançada pelo Alexandre Matias no site Trabalho Sujo.


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No início de dezembro participei do evento Interculturalidades, organizado pelo polo da UFF em Jacuecanga, Angra dos Reis. Toquei um set resumido, logo após a roda de jongo que uniu os grupos do Quilombo do Campinho e de Mambucaba, e uma roda de conversa com o Coletivo Feminista Maria Angélica Ribeiro. Foi ótimo apresentar as canções pra um público universitário pouco familiarizado com o som, pessoas curtiram e vieram perguntar sobre o projeto depois do show. Bem massa.


 

xi

 

Enquanto tudo isso rolava, também comecei a gravar novas canções, para um disco que será todo gravado em fita cassete e editado no computador. Um velho projeto de prog rock renascentista continua por ser finalizado mas já está 90% pronto, e canções em inglês também estão na gaveta pra provavelmente se tornarem um novo disco do meu projeto de adolescência, Psylocibian Devils. Se vou conseguir lançar tudo isso no ano que vem é uma questão para astrólogos, cartomantes, sacerdotisas avalônicas, analistas políticos ou mesmo jogadores de purrinha.


Obrigado por ler esse resumo até o fim, é incrível que alguém ainda se interesse!

Estejam ligados no meu Instagram @bonifrate, na página do facebook.com/bonifrate ou se inscrevam aqui no site (formulário ao lado) pra ficar sabendo das novidades.

Beijos cósmicos pra vocês, cuidem-se, e um ótimo ano de 2019, na medida do possível!

Bonifrate na Flip 2018, vídeo completo

novembro 27, 2018

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Na Festa Literária Internacional de Paraty 2018, a recém reinaugurada e rebatizada Biblioteca Maria Angélica Ribeiro, no colégio CEMBRA, abrigou uma programação enquanto casa de autora da Flip e como novo espaço cultural das pessoas de Paraty.

Tive o prazer de estrear com a apresentação do EP Lady Remédios e outras canções numa festa que começou com feira de livros independentes e seguiu com performance da amiga Maíra Galvão e Jeane Callegari, e do Sarau Hilda Hilst, com Slam de Quinta, Chacal e maior galera massa. Boas vibrações ecoavam.

Minha companheira Thalita Silva fez a câmera e a Antonia Regina Moura VJ Telurika fez essas projeções incríveis que incluem clássicos do Cinema Novo que foram rodados na cidade. Achei o conjunto legal e subi o show completo. Foi a primeira performance do novo single Alfa Crucis, que acaba de sair, dias depois de ter escrito. Espero que vocês curtam e ajudem a espalhar pra quem curtir possa. Obrigado e saúde!

Veja também “Concórdia/Voo de Margarida” no Hostel Alecrim, em setembro de 2018:

Novo single e vídeo “Alfa Crucis”

novembro 21, 2018

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Está disponível nas principais plataformas de streaming e pra download gratuito no Bandcamp o meu novo single, Alfa Crucis.

A faixa única tem pouco menos de 8 minutos, foi gravada em 4 pistas na fita cassete e editada no computador.

“Alfa Crucis” é uma canção sobre o futuro do amor, do sonho e da observação das estrelas.

O vídeo foi concebido e editado por Antonia Regina Moura, a DJ/VJ Telurika, com imagens de arquivos diversos. Assista abaixo.

Leia a matéria do Alexandre Matias no site Trabalho Sujo.

Leia também um comentário discográfico de Isaac Magalhães chamado “Sequelagem, psicodelia e Paraty: um passeio pela discografia de Bonifrate”.

Ouça no Spotify: https://open.spotify.com/album/3F9ZyEOG7KOk1WM5Zm6jzq

 

 

 

Um ano de Lady Remédios: download completo grátis!

agosto 21, 2018

CapaEm celebração ao aniversário de um ano do Lady Remédios EP, meu último disco, está liberado por tempo limitado o download gratuito da versão completa pelo Bandcamp, que inclui faixa bônus, PDF com arte em alta resolução, letras e cifras.

O EP foi originalmente lançado pela Balaclava Records nas principais plataformas digitais em 21 de agosto de 2017. A edição estendida traz uma versão alternativa da primeira faixa “Microcosmo”, exclusivamente através do download pago via Bandcamp, e agora grátis por tempo limitado.

BAIXE AQUI! – Clique em ‘Free Download” e escolha seu formato preferido.

Leia o faixa-a-faixa e entrevista para o Altnewspaper que saiu em 2017.

Assista aos clipes de “Lady Remédios” e “Rã”:

Ouça o ótimo novo disco da Betina, com participações de Bonifrate e mais

agosto 17, 2018

39454003_2108451175834783_7333982083297050624_oA Betina acaba de lançar seu novo disco, Hotel Vulcânia, do qual tive o prazer de participar como instrumentista em três faixas. Já sou fã da Betina como grande cancionista que ela é desde o Carne de Sereia (2015), mas agora ela chegou a níveis estratosféricos de melodia e verso.

Há uma identificação um tanto óbvia com a produção, da minha parte, já que ela é assinada pelo Diogo Valentino, companheiro de Betina e meu amigo-irmão desde tempos imemoriais ao longo dos quais aprendemos a pensar juntos musicalmente e desenvolver muitos códigos em comum; mas toda a sonoridade e a produção só fazem valorizar e sustentar a imaginação e a composição da Betina, que a meu ver são os Nortes desse trabalho incrível.

Estão lá mandando muito bem Luccas Villela, Irina Bertolucci, Allen Alencar, Bruno Matuck e o próprio Diogo (a banda), e mais participações de Boogarins, Tatá Aeroplano e Heloiza Abdalla. Aponto desde já como um dos meus discos favoritos desse ano.

Toquei Mellotron em “Hotel Vulcânia”, viola de 10 cordas em “Cal e cinzas” e um órgão de casiotone no refrão de “Autocrítica #7”.

Escute Hotel Vulcânia:

Bonifrate na Flip: sábado em Paraty

julho 26, 2018

Cartaz Bonifrate MAR 2018 (WEBcomVJ).jpgNeste sábado 28 de julho às 20h30, faço show solo na Biblioteca Maria Angélica Ribeiro, casa parceira da Festa Literária Internacional de Paraty e biblioteca do CEMBRA, maior escola da cidade, com projeções incríveis da VJ Telúrica, Antonia Regina Moura.

A biblioteca foi recentemente reformada e rebatizada em homenagem à primeira dramaturga mulher a ter uma peça encenada no Brasil. Nascida em Paraty e, até este ano, praticamente ignorada aqui ou alhures.

A reforma foi consequência de um processo claro e prático de luta e mobilização social que pude acompanhar de perto. A biblioteca é uma conquista material e simbólica da ocupação do CEMBRA em 2016 e de todo o movimento secundarista latino-americano dos últimos anos, dos estudantes e professores que lutam por uma educação pública de excelência.

Dito isso, será um prazer inenarrável apresentar em loops confusos nesse espaço algumas canções do Lady Remédios e uma ou outra mais antiga ou mais recente ainda, ainda mais acompanhado dos vídeos da VJ Telúrica.

O evento continua depois do show com performance de Maíra Galvão e Jeane Callegari, e com o Sarau Hilda Hilst, e com feira de publicações independentes.

Vale dar uma olhada na programação geral da casa durante a Flip (abaixo), que traz inclusive os grupos locais de teatro Olho Negro e Andantes Errantes encenando o teatro de Maria Angélica Ribeiro, mais de cem anos depois da sua última apresentação.

Tudo feito na luta, na vontade e na independência de muitas pessoas (e praticamente nenhuma instituição), dentre elas Thalita A. F. da Silva, Silvina Hurtado, Antonia Moura e Gabriela Gibrail.

Vinis à venda no local (dinheiro vivo apenas, a princípio).

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Midsummer Madness lança tributo a The Fall, ouça versão do Bonifrate pra “Psykick Dance Hall”

maio 26, 2018

 

Nossa boa velha casa, o selo Midsummer Madness (est 1989) acaba de lançar um breve tributo a The Fall que traz releituras de Loomer, Digital Ameríndio, OverEnd, DON, Estación Experimental, e a minha pra “Psykick Dance Hall”, uma faixa do primeiro disco, de 1979, que abre o tributo. Thalita da Silva incrementou o coro do refrão e Diogo Valentino masterizou. A capa é do amigo Augusto Malbouisson.
Que a voz de Mark E. ecoe nas vibrações em vinil que seguem vivas, como diz a canção.

Lariú Says: “Quando Mark Smith, fundador e vocalista da banda de Manchester The Fall morreu em 25 de janeiro de 2018, todos no midsummer madness ficaram bem tristes. A banda lançou dezenas de álbuns, todos muito inquietos. Sempre foram avessos ao establishment e fizeram músicas falando sobre isso. The Fall foi a banda que melhor entendeu e executou as ideias do punk. Não ter Mark Smith anarquizando o sempre muito bonitinho mercado da música é um golpe.”

 

Lady Remédios: Faixas comentadas e entrevista no site Altnewspaper

setembro 18, 2017

O site Altnewspaper publicou um faixa-a-faixa que escrevi pro novo EP Lady Remédios, e mais uma entrevista muito legal com o Diogo Albuquerque a.k.a. Hominis Canidae.

Leia a matéria completa aqui.

Segue uma transcrição dos comentários às faixas com referências linkadas, com seus devidos tocadores e imagens (pra ler a entrevista também clique no link acima).

1. Microcosmo

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Um épico introdutório que narra encontros imaginários entre entidades meta-históricas por trás do aparecimento de “um porto chamado Paratee”, como a cidade foi primeiro referenciada em 1598 pelo pirata Anthony Knivet.

A primeira estrofe diz respeito aos celtas, que em dado momento teriam entrado em contato com mercadores gregos e fenícios e deles recebido da ilha mítica de Hy Brazil um mineral vermelho chamado cinábrio. A etimologia do mineral se confunde à do nome do nosso país, e ambas se relacionam à cor vermelha de uma forma ou de outra. A segunda, aos povos pré-históricos que aqui habitavam ou que por aqui passavam, se reunindo e contando velhas histórias em volta dos sambaquis da Praia do Forte e da Toca do Cassununga – potenciais porém inexplorados sítios arqueológicos de Paraty.

Enfim, uma profecia é formulada por uma daquelas entidades, já nos tempos do Império Português: “serás microcosmo do Brasil”.

Essa base quebradíssima que alterna compassos de 5 e de 6 tempos foi concebida em 2009 como uma peça instrumental. Chegou a ser ensaiada pelos Supercordas quando estivemos no Estúdio Musgo, naquele ano, mas nunca chegou a engrenar. A ideia de escrever versos pra ela só veio no início deste ano de 2017, já visando a abertura do EP.

uma versão do disco que traz uma mixagem alternativa desta canção, construída em volta de violões e harmonias vocais, como faixa-bônus.

2. Lady Remédios

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Essa balada quase kinkiana foi toda escrita há dois anos, logo depois que terminamos o disco Terceira Terra, dos Supercordas, e seria destinada ao disco seguinte do grupo. Gravei uma demo pra mostrar pra banda na época, e alguns canais dessa primeira versão ficaram definitivos, como o baixo, a guitarra com phaser e os teclados Casio, que são o grande piso harmônico do arranjo.

A primeira frase do refrão já rondava minha cabeça desde que eu voltei a morar na cidade, em 2012, mas como de costume demorou alguns anos até que eu conseguisse botar uma estrutura no papel. A letra traz muitas referências ao passado recente, algumas facilmente identificáveis por quem tem algum contato com essa história daqui, outras menos: as tendas atômicas da cidade-evento fagocitando nossas culturas tradicionais; os manguezais aterrados para a construção de marinas e resorts; a grilagem de terras que começa com a monarquia e continua com os grandes conglomerados midiático-empresariais; nosso produto e moeda de troca mais tradicional – a cachaça; o Patrimônio Histérico, que era o nome de uma banda local de fins dos anos 80 e inícios dos 90; a decadência e o sucateamento do IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Particularmente, acho uma das minhas melhores canções. Essa frase de metais na última parte me apareceu enquanto eu dedilhava a harmonia no violão, como uma derivação estilística de alguma canção do Blur, talvez “Country House”, ou talvez de “Tin Soldier Man” dos Kinks. Deve haver uma inspiração mais certeira a ser citada, mas sinceramente não me lembro.

Engraçado que depois de ter finalizado a mix, o resultado me remeteu a um clima geral de estranheza Gorky’s Zygotic Mynci (banda galesa que é uma das minhas maiores influências) como aquele de “3000 folhas”, dos Supercordas. Hits esquisitos, para mundos inexistentes.

3. Refúgios

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Depois de fechar quatro canções propriamente ditas, me ocorreu que seria pertinente encaixar uma ou duas colagens sonoras para lubrificar a fluência do disco. Confesso que o novo disco dos Boogarins, Lá vem a morte, teve alguma influência nisso, porque gostei muito da forma como ele flui como um álbum, mesmo sendo relativamente curto.

No fim optei por ter apenas uma faixa-colagem, que se tornou “Refúgios”. Usei um sample do falecido poeta local José Kleber (um beatnik e um boêmio, posso dizer pelo que me lembro dele dos tempos de criança) lendo seu poema “Lamentações sobre os muros de Paraty”, uma obra-prima intensa e passional que você pode ouvir integralmente no YouTube. Adicionei um sample de motor de baleeira e alguns sons de outras faixas processados e alterados no gravador de fita.

4. Lei de remédios

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A cacofonia irreverente do título atenua um pouco o peso dessa canção, que procura abordar uma permanência das mais significativas da história de Paraty: a servidão. Do movimentado entreposto de escravos dos tempos coloniais e imperiais ao balneário turístico que precariza sua juventude e serve de palco para uma das encenações mais brutais da chamada “guerra às drogas”, esse belo shopping center histórico é também uma das 3 cidades mais violentas do estado do Rio de Janeiro.

A palavra “servidão” é poeticamente emprestada da minha obra favorita do Antônio Carlos Jobim, que é o álbum Matita Perê e sua faixa-título, e daí emanam influxos que interpretei nessa gravação com sons de cordas de Mellotron, acordes bem brasileiros tocados no violão de nylon e nas vozes quase sem processamento além da passagem pela fita K7 – artifício que, aliás, foi bem comum ao longo de toda a produção do disco.

5. Rã

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Pode-se dizer que essa canção partilha com “Lei de remédios” a inspiração jobiniana da fase Matita Perê, ou talvez Terra Brasilis, misturada a uma intenção batuqueira do Beck da fase Mutations ou Deadweight.

“Rã” foi escrita há mais de dez anos. Havia a ideia de que ela integrasse o disco Seres Verdes ao Redor, dos Supercordas, mas por algum motivo ela acabou sobrando. O mesmo aconteceu com outras canções que não chegaram a ser propriamente gravadas. A única versão que chegou a circular pela internet foi apresentada pela banda no programa Música de Bolso em 2007.

Aqui ela funciona quase como uma fuga da temática mais circunscrita pelas demais canções. Ela sai pela tangente da atmosfera referencial do disco, paira leve e doce sobre as ruínas que sobraram. As vozes aeradas da Thalita Aguiar, minha companheira, ajudaram a injetar ainda mais leveza nesses velhos versos.

O vídeo editado para essa canção fecha a trilogia que engloba também “Naufrágios” (2011) e “Museu de Arte Moderna” (2013), em que editei livremente um arquivo de imagens do meu avô (que não cheguei a conhecer), filmadas em Pathé 9,5mm nos anos 50.

 

Novo vídeo: “Rã”

setembro 11, 2017

Está no ar o vídeo de “Rã”, última faixa do EP Lady Remédios. O clipe fecha a trilogia que começou com “Naufrágios” (2011) e continuou com “Museu de Arte Moderna” (2013), em que editei imagens do arquivo do meu avô, Darcy Franke, filmadas em Pathé 9.5mm nos anos 50.

O novo EP Lady Remédios foi lançado em agosto pela Balaclava Records, e está disponível para download pago no meu Bandcamp (inclui faixa-bônus e encarte completo com letras e cifras) e download gratuito no Hominis Canidae.

Assista também ao vídeo da faixa título, “Lady Remédios”.

Leia uma bela resenha do EP no site Monkeybuzz, escrita por Gabriel Rolim.

 

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